terça-feira, 18 de julho de 2017

É UM POUCO MAIS

Dei pequena entrevista, motivada pelo lançamento de livros e pela Flip, em que o tema "ser carioca" apareceu. A resposta honesta que posso dar é que não sei o que é o "carioca". Desconfio cada vez mais que esta afirmação identitária dos nascidos no Rio de Janeiro nos acorrenta a certo paradigma de legalidade higienizador, fundamentado em um projeto civilizatório que maneja o mito do “carioquismo” como simulacro da informalidade; enquanto na prática se alimentou deste mesmo simulacro para moldar a cidade como o balneário de grandes eventos - capaz de atrair vultuosos capitais - e varreu para debaixo do tapete a crônica de horrores (e belezas) que, em larga medida, é desde sempre uma das histórias deste chão. 

Marques Rebelo falava do Rio de Janeiro como uma cidade feita de várias cidades. Pegando o mote, rodamos em uma ciranda de identidades contraditórias, por isso mesmo impossíveis de qualquer captura, que nos empurram em diferentes direções e em constantes deslocamentos. Acreditar em algo único, coerente e homogêneo neste processo é uma fantasia aprazível ou, ao gosto do freguês, demolidora. Ou admitimos uma(s) cidade(s) em vertigem, ou continuaremos acreditando em conto de fadas, imbuídos da nossa missão de salvar alguma coisa que nem sabemos exatamente o que é. 

Como posso saber o que é um carioca, se a cidade é o território em disputa que pulsa na flagrante oposição entre um conceito civilizatório elaborado a partir do cânone ocidental, temperado hoje pela lógica empresarial, e um caldo vigoroso de cultura das ruas forjado na experiência da escassez? Onde situar uma identidade no meio desta porfia? Não me parece nem uma questão relevante. 

A cidade que me interessa na pluralidade dos rios de janeiro é aquela que nas frestas e esquinas ritualizou a vida para o encantamento dos cantos e dos corpos. Aquela que subverteu a chibata que deu no corpo em baqueta que bateu no couro do tambor, conforme digo com frequência.

Quase nunca foi bom. Sempre foi potente e transcendente. Caladas por uma cidade oficial historicamente propensa a demolir seus lugares de memórias, as culturas historicamente subalternizadas das ruas do Rio reinventaram a vida no vazio do sincopado, sambando, ousando discursos não verbalizados e soluções originais a partir dos corpos em transe no terreiro (conceitos que me parecem mais pertinentes que os de trânsito no território), em desafiadora negação da morte, solapada pelo bailado caboclo dos ancestrais que baixam em seus cavalos nas canjiras de santo. 

Aqui, afinal, no meio do mais absoluto horror, entre sons de chibatas e balas de morte, falaram também aguerés, cabulas, muzenzas, barraventos, avamunhas, satós, ijexás, ibins e adarruns. Na maior parte do tempo, proibidos. Sempre vivos. 

 Há quem prefira a cidade desencantada, adequadamente moldada para a circulação de carros e mercadorias, vitimada pela sanha demolidora da bandidagem engravatada, devastada em seu imaginário de afetos: do Maracanã de tantos gols, da UERJ de tantas ideias, das barbearias de rua, dos botequins mais vagabundos, dos açougues e quitandas da Zona Norte, das sociabilidades meninas dos debicadores de pipa, dos pregoeiros da Central, da malandragem do jogo de ronda, dos artistas anônimos do Japeri, dos boiadeiros cavalgadores dos ventos, dos garotos queimados de sol da bossa nova, do malandro das Alagoas e dos tupinambás flechadores de Uruçu-Mirim descendo em gira de lei. 

 De uma cidade sem o sal da memória dos dias longos e da noite grande não sairá nada. A lufada de esperança vaga que tenho é porque continuo apostando que nos deslocamentos e nas frestas - entre as gigantescas torres empresariais viradas em esqueletos de concreto, as ruínas de arenas multiúso e as vielas de lama e sangue - os couros percutidos continuarão cantando a vitória da vida sobre a morte no terreiro grande da Guanabara. 

Sempre cantaram. A nossa História, é disso que falo, afirma isso em cada gargalhada zombeteira dos exus, com as sonoridades insinuantes e desconfortáveis dos deslocamentos e transes; daquelas que saem dos terreiros entocados, das brechas, do cu do mundo, das tocas de bicho-homem, das saias das bombogiras, da lua de Luanda e da terra que nos pariu e nos ensinou que a vida - a despeito destes putos, cariocas também, e contra eles - não é, não pode ser e não será só isso que se vê.